domingo, 12 de setembro de 2010

Johan Malmann

   Uma manta a tiracolo, meus chinelos de camurça e uma xícara de chá; sentado em minha melhor cadeira de praia. Ali da varanda eu observava o quintal que se estendia até onde a vista poderia chegar, minha pequenina sentada no último degrau dos três que nivelavam o piso da casa com o do jardim. Meu menino corria de um lado para o outro, longe, brincando de tentar alcançar Ben - nosso bernese mountain dog -, nomeado por mim e minha incrível falta de criatividade.

   Todas as manhãs eu me levantava antes mesmo deles e preparava para mim um pouco do meu chá preferido, colocava na vitrola, com o mínimo volume possível, um dos meus antigos discos de Nick Drake. Todas as manhãs, ao ir para a varanda segurando minha velha companheira nas mãos, uma única tábua do chão estalava, a cadeira de praia rangia e eu suspirava ao ver os primeiros sinais do nascer do sol. Era assim, todos os dias.

   Os pequenos acordavam e iam correndo para a cozinha. Meu coração regozijava ao ouvir seus pezinhos descendo a toda pelas escadas, suas mãozinhas abrindo os armários da cozinha, dois amigos inseparáveis, se cuidando todos os dias. Ela, dois anos mais velha e quase dez centímetros mais alta, pegava as tigelas e o cereal, enquanto ele estava encarregado de trazer o leite e as colheres. Eu preparava, sem esforço, meu melhor sorriso e meu melhor cumprimento ao ouvir que se aproximavam. "Bom dia pequenos, dormiram bem?" Seus rostos se iluminavam ao olharem para mim e responder: "Sim, papai.". Eles se assentavam a mesa - nossa pesada mesa de mogno que ficava na varanda -, preparavam o desjejum preferido de ambos e comiam calmamente, brincando com os olhares e as mãos, conversando em silêncio, preparando as travessuras de mais tarde.

   Nesse tempo, nosso querido Ben já estava a toda, correndo por entre as colinas e depois se aproximando ao ver que as crianças já terminaram de comer. "Podemos brincar agora papai?", eu assentia com a cabeça e eles disparavam. Clarisse ia buscar suas bonecas, o pequeno Sami saltava por cima da escada que levava ao jardim e corria chamando pelo nome de nosso bernese. Eu terminava meu chá, me levantava, a cadeira rangia, a tábua estalava, pegava as tigelas dos pequenos, o leite, o cereal, levava tudo para a cozinha e deixava lá até a hora do almoço, quando decidiríamos qual era o prato do dia, todos juntos, sempre. Quando eu ia de volta para a cadeira, Clarisse cruzava comigo, suas bonecas nos braços e sorrisos mil estampados em seu rosto. "E hoje minha querida, o que vai acontecer?", ela tinha uma imaginação fervorosa, sempre maquinando alguma coisa, todos os dias me deixava a par dos últimos acontecimentos da sua eterna novela de bonecas. "Hoje a Hana e o Ernest vão se casar papai!" - desde que viu em minha mesa um dos livros de Ernest Hemingway, nomeou imediatamente um de seus bonecos com o nome do autor. "Então já é hoje o grande dia? Melhor se apressar para começar os preparativos!", "Sim, papai! Já estava indo!". E lá ia ela, correndo para o velho e enorme tronco de carvalho derrubado à poucos metros da casa, dizia que lá era " a cidade deles papai, onde todos moram e se casam e dormem e vivem.".

   Tão lindos, perfeitos. Sami tinha meus cabelos e meu sorriso bobo, Clarisse a minha imaginação e os meus olhos matreiros. Mas ambos me lembravam intensamente a ela, irremediavelmente. Nos gestos, na fala, nas brincadeiras, no instinto natural de prestatividade e compaixão para com qualquer coisa que se movesse - ou não. Ali, sentado na minha velha cadeira de praia, meus chinelos de camurça no chão ao meu lado, vestindo minha velha calça de moletom e uma camisa manchada de café e mostarda, eu observava todas as manhãs meus pequenos. Atentamente via cada traço semelhante a mim ou a mãe ou a nenhum dos dois. Coisas próprias que um mistério juntou e transformou de nós para eles. Sentia muito a falta dela, mas antes era pior. Os pequenos passaram por tudo isso e agora renascem. Voltam os sorrisos, os abraços, as brigas bobas de criança que logo depois são esquecidas. E eu? Bem... Volto a sonhar. Continuar a fazer o que sempre fiz e continuar a viver o sonho que eu e ela construímos. Aqui no campo, nessa casa, com nossos profundamente amados filhos.

   Não voltaria no tempo. Não traria ela de volta. Ela se foi e, por mais que tenha doído e ainda doa, é assim que as coisas vão ser. Mudar a vida, o tempo, a morte... Bobagem querer isso. Ela gostaria que eu sorrisse como agora, vivesse como agora, me levantasse e continuasse a ver os anos entrando em nossa casa e nos trazendo tempos e tempos mais. Ver as árvores crescerem, envelhecerem e, como nós, se encherem de rugas. Não sonho com magníficas e gloriosas conquistas, mas sim com a humilde e simples alegria do conforto de um amor tão sincero e caloroso, que ela mesma me ensinou a amar.

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