Vivi tempo na escuridão. Observando tudo o que se passava aqui fora.
Meus olhos, desacostumados com a luz, ao contrário do que pensei não se incomodaram,
receberam placidamente cada partícula vívida que lhes encarava.
Os pés descalços, já calejados do chão duro e do concreto frio,
toda a confusão, lamentações a pouco perdidas, já não mais parecem tão reais.
A grama e o mato altos me fazem cócegas nas pernas,
cada nó e fibra do meu corpo se relaxa e recebe a maciez da terra que piso.
Uma trilha se abre a minha frente, eu ainda olho para baixo com medo de encarar o horizonte.
O sol cobre todo o meu corpo e os trapos que me envolvem são aquecidos,
não mais sinto frio.
A brisa leve e morna me diz para não ter medo.
Levanto o rosto e encaro as montanhas de um azul profundo cortarem os céus de fora a fora,
aos seus pés espalham-se aos montes amieiros-cinzentos e vidoeiros-brancos, protegendo
as marges de um lago que só posso divisar pequena parte, mas que reflete os raios de clareza com esplendor.
Crisântemos... De todas as cores que eu jamais poderia imaginar; já havia me esquecido de todas elas.
O sol me acolhe, a grama e o mato me alegram, as flores e as árvores me fitam a todo instante,
me convidando a ficar.
O cheiro de tão verdejantes vidas é suave e inebriante.
Olho ainda mais uma vez para trás,
A porta continua aberta, a chave pesa em meu bolso, um aperto no peito me vem e, de repente,
parece que tudo de que sou capaz é temer uma profunda treva que me aprisonou durante todo aquele tempo.
A brisa sopra um pouco mais forte, um pouco mais fria. Vejo deitado, à sombra de um dos vidoeiros, um cervo branco. Ele põe seus olhos em mim e parece enxergar algo que eu mesmo não poderia perceber.
Certo sentimento de decisão e coragem invade meu peito e os sons do vento roçando no mato é tudo que posso ouvir. Meu espírito se eleva.
Levo a mão ao bolso, tiro a chave que me fora dada tanto tempo atrás. Ainda brilha dourada e cheia de gosto, maldição que não pude evitar.
Seguro a maçaneta, empurro e fecho. Coloco a chave e tranco com uma volta.
Agora duas.
Viro-me e caminho em direção ao lago, o cervo se levanta lentamente e galopa, desaparecendo dentro do bosque onde se esconde o lago. Tudo agora parece ainda mais verde e caloroso. Não sinto mais fome ou sede. Pareço me imergir em uma manhã eterna.
Viverei aqui. Nada construirei, nada plantarei e de nada vou me aproveitar. Essa terra que agora piso me alimentará com sua força, esse lago que se esconde na paisagem ricamente arbórea à minha frente me saciara a sede com sua sabedoria. Serei um com este lugar. E ele me renovará, renascerei aqui como homem, vida e plenitude.
Caminho até o topo dessa pequena colina ao leste, deito-me e o mato alto me cerca, preguiçosamente admiro as nuvens. Fecho os olhos, a relva me cobre, a brisa morna e os raios de sol me aquecessem, a respiração lenta, o corpo se entrega. Calmamente adormeço. A esse lugar, chamo Seol.
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