Belo Horizonte, 9 de Outubro de 2010,
Veja bem,
Veja bem,
Não desejei nem por um instante que não fosse fugidio. Não ver mais seu rosto, seu perfeito corpo pálido convidando-me a sorver um pouco de você em cada poro... Bem, que seja então esse o preço. Porém, jamais lhe deixarei partir de minhas memórias. Compartilhamos um momento eternamente maculado e de profundeza inimaginável. O nu dos corpos refletia não um desejo carnal, mas a mais pura necessidade de entregar-se. Entregar-me tuas mãos, deixar que eu lhe guiasse cada passo, cada movimento, cada gesto, cada sensação. Entreguei-lhe meus olhos e toda força que havia em mim, lhe disse tudo que era necessário no toque de nossos lábios. Seu rosto enrubeceu, teu colo o seguiu as ações. Naquele quarto não existiram dois corpos, dois seres, um homem e uma mulher. No seu leito coexistimos como mais lúcido organismo pulsante, ondulando e serpeteando em si mesmo, dando voltas ao seu redor, metamorfoseando-se hora em cisne, hora em loucura.
Não pudemos, nem queríamos, conter nenhum centímetro de nossa felicidade. Degustamos demoradamente nós mesmos e nossas palavras. Cada sussurro e clamor interrompido por um suspiro...
Minha senhora, minha doce menina, quisera eu tomar-lhe os medos em meus braços agora, atirar cada um deles ao mar. Não ousaria, não poderia. O fugaz é nossa magia, o etéreo é nossa canção, cada nota pontilhada pela mais fugidia paixão. Tivemos nosso tempo e, minha amada, como o vivemos bem. Temo que nos anos porvir jamais deixarei que outra tome o seu lugar, mas guardarei-lhe a memória com a mais perfeita dedicação. Não tocarei com estas mãos nenhum outro corpo nem estes lábios meus hão de proferir palavra e votos à outrem. Permanecerei em solidão e esperarei pela sua visão, em meus últimos dias, quando você virá despedir-se de seu, já ancião, todavia eterno, amante.
Doce amor, queria saber-lhe o nome e onde mora para endereçar-te esta carta. Contudo, guardarei em meu peito profundamente todas essas palavras e as terei prontas no nosso próximo e último encontro. Sei que pode sentir-me agora, sei que aqueço-lhe o coração, pois o meu é chama que não se encerra. Atenta ao vento que açoita sua janela, sou eu a desejar-lhe em cada grão de vida que me resta.
Chamarei-lhe apenas, Vida, pois vida foi o que ofertou-me. Ainda ouvirei sua doce voz chamar-me o nome uma última vez.... E até lá, amar-te-ei em cada partícula de meus dias. Doce vida.
Do seu eterno,
Raphael.
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